Uma história real de ilusões e desilusões.
I. Tempo de descobertas
Eram dois amigos. Um casal de amigos que muitos diziam que estavam juntos.
A amizade se estendia por quase dois anos, haviam tido tempo para contar o seu passado, suas histórias e seus sonhos. Muitas coisas em comum os aproximaram, solidificando sua amizade.
Após algum tempo afastados, se reencontraram e iniciaram um novo ciclo de conversas e chopes. Toda semana se viam, contavam suas novidades, riam e praguejavam dos fatos da vida. Os encontros se tornaram freqüentes e quando não se viam conversavam por telefone ou outro meio qualquer.
A essa altura, ele já não a via apenas como amiga, percebera que aquela pessoa lhe trazia um bem estar que nenhuma outra lhe proporcionava, sua companhia se destacava das demais. O tempo passava e a cada encontro tinha mais certeza do que sentia.
Mas o que fazer então? Como poderia arriscar uma amizade tão valiosa para ele? Por um lado ele desejava ter uma relação de outro nível, mas por outro tinha medo, medo de estragar aquilo que já tinha. Era uma difícil escolha que exigiria muita observação para tomar a decisão.
Os dias se passavam e ele apenas observava. Até que um dia, o encontro foi no apartamento dela e a história começava a mudar.
Compraram cervejas, subiram juntos ao apartamento, onde ela pode apresentar-lhe seu novo lar. Por algumas horas beberam e conversaram sobre tudo, sobre mudanças, sobre a vida e sobre relacionamento. Ela contava-lhe sua dura separação, após um longo período em que fora esquecida pelo ex-marido.
– Poxa, sou bonita, não sou de se jogar fora – disse ela, indignada – Diga, você ficaria comigo?
Uma resposta positiva foi lançada e recebida com os risos dela, que afirmava que ele ficaria com qualquer uma, sem distinção. Ele retrucou, dizendo que ficar por ficar poderia ser qualquer mulher, mas ela era especial. Os risos se mantiveram e foram obrigados a mudar de assunto para ofuscar o constrangimento.
Ele não soube definir o que havia acontecido. Seria um ponto positivo, que indicava algum interesse por parte dela? Ou estava debochando da possibilidade de estarem juntos?
Continuaram conversando madrugada adentro, ela, com a cabeça apoiada nos ombros dele, com os braços entrelaçados ao dele. O assunto já não seguia o mesmo ritmo, estavam com claros sinais de sonolência. Ele vira seu rosto, encosta os lábios na testa dela. Fecha os olhos e pensa. Desiste. Ela levanta o rosto, olhando em seus olhos e… e ele hesita.
– Você está com sono, vou deixá-la dormir.
Ele foi embora repleto de dúvidas. Será que deveria ter se arriscado? Será que todos os sinais vistos estavam certos ou eram apenas o excesso de intimidade criado pela amizade? Não saberia, apenas foi embora.
No caminho para casa, ainda no carro, mandou uma mensagem a ela. Na mensagem ele pedia desculpas pelo tempo tomado, pois a segunda-feira estava quase amanhecendo e ela acordaria cedo, também explicou, em poucas palavras o valor que dava a sua amizade e o temor de perdê-la caso fosse além dela. Ela respondeu horas mais tarde para não se preocupar, que o adorava. A dúvida continuava.
II. A conquista
Nos dias seguintes, ele tiraria suas férias, sairia de viagem. Logo no segundo dia de viagem perdeu o celular. Alguns dias depois o recuperou e ligou para ela. A conversa foi rápida, trivial, mas parecia um alívio.
Ele voltou de viagem em um sábado, indo no contra fluxo das pessoas que aproveitariam o feriado na segunda-feira. Ela estava recebendo sua família em casa então ele apenas mandou-lhe uma mensagem dizendo que estava de volta à cidade. Aproveitou os dias a seguir para descansar e trabalhar.
Na terça-feira, sua família voltou à sua cidade-natal e ela lhe enviou um recado, avisando deste “abandono” e para combinarem algo mais tarde. À noite, tentou telefonar para ela, mas ela não ouviu, mandou uma mensagem no dia seguinte pedindo desculpas. Foi um azar, que marcaria o primeiro desencontro da semana.
Na quarta, ele foi à aula e só soube que havia sido cancelada chegando lá. Ficou irritado, perdera duas horas no trânsito caótico em vão. Ligou para ela, na esperança de transformar esse transtorno em um momento agradável. Ela estava em um bar com uma colega de trabalho e ele novamente mudou seus planos. Contatou alguns amigos e foi a uma casa noturna, cuja desorganização e demora para entrar o convenceram a voltar para casa. Três tentativas em uma noite, nenhuma concretizada.
Na quinta ele saiu com os amigos, nem tentou nada com ela pois ela teria aula. Ao voltar para casa não quis correr riscos e a convidou para sair na sexta-feira.
Ficaram de combinar, ele ligou para ela depois do trabalho e ela não estava disposta. Algum tempo depois ela voltou atrás e eles saíram. Foram para um bar, conversaram, beberam, e tiveram que sair quando as portas estavam se fechando. Ele a levou para casa e lamentou ter que deixá-la. Ela, então, o convidou a subir para seu apartamento.
Subiram, sentaram-se no sofá e continuaram sua conversa. Os dois se aproximavam, riam e falavam sem se importar com o horário. Então, no meio da madrugada aconteceu o primeiro beijo. Foi um impulso. Ele viu que seria possível e tentou. Deu-lhe um breve beijo e viu que não houve reação negativa, tentou o segundo e comprovou sua intuição. Ele a beijou. Eles se beijaram.
– Até que enfim – disse ela – Você demorou bastante.
Nessa hora ele conseguiu as respostas que buscava. E, entre beijos, falou a ela sobre o medo que tinha de estragar sua relação com ela e o quanto ela era especial. Confessou que há muito tempo queria isso e ela disse o mesmo. Viram que eram dois tolos, com medo de errar em uma relação que não teria erros.
A conversa continuava, mas agora com outros assuntos. Falavam deles. Ela falava que tinha medo de se machucar, pois acabara de sair de uma relação e conhecia o passado boêmio dele. Ele tinha medo de perdê-la, ainda mais após ouvir algumas histórias do passado dela. Ela pediu para irem devagar, para dar tempo de se conhecerem. Ele concordou e lembrou-a que antes de tudo, eles eram amigos e que deveriam manter a boa comunicação para que tudo corresse da melhor maneira.
Conversaram sobre o passado deles. Todos acreditavam que eles estavam juntos mesmo quando ela ainda era casada, parecia que, enfim, veriam uma confirmação. Combinaram que não contariam nada para essas pessoas, pelo menos não por enquanto, para que não houvesse mais boatos sobre infidelidade no passado dela.
Ela conhecia algumas das técnicas dele, ele havia lhe contado. Ela disse que achava piegas o homem ligar no dia seguinte, ao contrário das outras mulheres, que sempre se surpreendem pois duvidam que receberão alguma ligação. Acabara de bloquear uma de suas armas mais certeiras.
Conversaram e se beijaram mais um pouco, até que amanheceu. Ela tinha aula no sábado de manhã, então se despediram e enquanto ela tomava banho ele voltava para sua casa.
Talvez esse tenha sido o início do fim.
No dia seguinte ele não ligou para ela, lembrara de seu comentário. Havia combinado com sua ex-namorada, atualmente uma grande amiga, que iriam jantar e conversar. Ele havia contado do jantar para ela, mesmo antes do primeiro beijo. Após o jantar voltou para casa. Era uma noite de sábado mais curta que o normal, por ser o início do horário de verão. Nos primeiros minutos da madrugada mandou uma mensagem a ela. Tentava combinar algo para o domingo.
No domingo era vez dele ter um curso. Trocaram mensagens de dia e a noite ela não o atendeu. Era a vez dela jantar com o ex-marido. Mais tarde trocaram algumas mensagens, onde ela disse suas boas impressões sobre o que havia tido entre eles e lamentava o fato dele não ter ligado dia seguinte. O saldo era positivo, mas a reclamação da ligação foi um tiro n’água. As mulheres não decidem o que querem e só mais tarde percebera.
Dias depois ambos tiveram problemas com as famílias. Cada um com um caso diferente. Acabaram se encontrando no apartamento dela onde desabafaram e deram seqüência às suas intimidades.
O clima esquentava entre eles, os beijos já não se controlavam e os corpos buscavam acompanhar o que os lábios faziam tão fervorosamente. As mãos corriam pelo tecido sem segurar nada. As pernas se trançavam; os peitos, pressionados, mal conseguiam respirar; todo o corpo parecia ajudar, da sua maneira, o beijo a acontecer.
Ela havia dito que não estava pronta para se entregar, então tiveram que parar para evitar o que parecia inevitável. Ofegantes, tentavam retomar o fôlego. Ele, próximo à porta de entrada, ela à sua frente. Os lábios dela continuaram seus ataques, que logo foram acompanhados dos lábios dele. As mãos entraram no jogo e antes que fosse tarde ele recuou.
Ela o pegou pelos ombros, encostou-o na parede e deu continuidade ao seu procedimento. Enquanto beijava-o, suas mãos percorriam o corpo dele, com a pressão necessária para que ele não saísse de onde estava. Desciam pelo peito até as coxas, iam para as laterais das coxas e subiam às costas, de onde voltavam aos peitos e repetiam o mesmo caminho.
Ela dizia que não estava fazendo nada, apenas provocando-o, então ele começou a provocá-la. Pegou-a pela cintura e a pôs na mesma parede em que estava. Inverteram-se os papéis. Os lábios se beijavam enquanto as mãos procuravam outros caminhos. Por debaixo da blusa encontrou o sutiã, que em alguns segundos já não estava mais no corpo.
– O que você está fazendo? – questionou ela.
– Não estou fazendo nada – ironizou ele, repetindo o que havia ouvido dela – Estou apenas te provocando.
Os lábios foram de encontro aos mamilos, que logo encontraram a língua também. O outro seio não foi esquecido. Os beijos eram revezados entre a boca e os seios para que todos tivessem seu momento. Em alguns minutos a calça dele já não comportava o seu conteúdo, que foi exposto e acolhido pela mão dela.
Ela não agüentou muito tempo e quis retomar o controle. Conduziu-o para o meio da sala e o empurrou no sofá. Tão logo caiu, ela se pôs a montar, como uma amazona, e entre beijos trotava como se estivesse fugindo de tudo.
Ela não ousara tirar a roupa. Queria sentir toda a encenação sem, contudo, se entregar totalmente. Trotou até cansar as pernas e, suada e ofegante, sentou-se ao lado dele. Olhou o relógio e disse que precisava dormir. O convidou para dormir com ela.
– Se eu dormir aqui não vou agüentar, vou passar dos seus limites – Ele disse – Sou homem, não vou agüentar dormir ao seu lado sem fazer nada. É melhor eu ir embora.
Conversaram e decidiram pela sua partida. Ele saiu, chamou o elevador e voltou à porta, onde ela o esperava. Deu-lhe os últimos beijos e foi embora.
III. O verdadeiro começo do fim
Nos dias seguintes tudo estava diferente. Mas ele não percebeu. Tiveram desencontros de telefonemas, mas ainda trocavam mensagens e ele conseguiu falar com ela na sexta-feira. Ela estava indo jantar com uma amiga, mas aceitou seu convite para sair, disse que quando acabasse ligaria para ele.
Um amigo dele estava se despedindo, de mudança para uma cidade a três estados ao sul. Seus amigos prepararam uma última festa, que aconteceria em uma cidade do interior. Mas ele não hesitou dessa vez, havia combinado de encontrá-la e não poderia decepcioná-la.
Três horas e meia após a primeira ligação, ele voltou a procurá-la, para saber o andamento do jantar. Ela já estava de saída e em breve retornaria a ligação. Uma hora depois ela não ligou mas mandou uma mensagem. Nela dizia que já estava bêbada e não sairia com ele.
A essa altura seus planos haviam ido por água abaixo. Pelo horário ele não chegaria na despedida de seu amigo a tempo.
Ele pensava no que passava pela cabeça dela. Uma hora antes, quando conversou com ela, já seria capaz de decidir se sairia ou não, poderia ter sido mais franca. Além disso, uma mensagem soou como uma fuga, quando o esperado era uma ligação.
– Imperdoável – disse ele, espantado pela sua falta de consideração.
Dois dias depois ela inicia uma conversa. Não abordara nenhum assunto e em poucos minutos já não se falavam mais. Algum tempo depois ele rompe o silêncio e fala sobre o ocorrido da sexta-feira. Ele disse como se sentiu, que havia percebido seu descaso e disse que parecia que ela estava brincando com ele.
– Não estou brincando com você e jamais faria isto. O que sinto por você é muito especial para brincar com a sua cara – disse ela – Eu só quero que as coisas vão um pouco devagar.
– Eu adoro você – continuou ela – E adoro tanto, que estou com muito medo. Por isto acabo fugindo de você.
Ele não achava os argumentos convincentes. Ela teve chances de recuar quando bem entendesse, não estava sendo obrigada a nada. Ela admitiu que errou, mas falou da importância daquele jantar, pois era uma amiga que não via há muito tempo e, como ela estava longe da sua cidade-natal, não tinha amigos por perto. Acabaram a conversa.
Na segunda-feira foram almoçar juntos. Ele queria conversar direito, deixar tudo esclarecido com uma conversa pessoalmente. Ele sabia que qualquer outro meio de comunicação poderia passar de forma errada o que eles efetivamente queriam dizer.
Foram para um restaurante longe do trabalho dela. Segundo ela, para não encontrar nenhum colega e poderem conversar mais a vontade. Conversaram sobre o ocorrido e chegaram em um ponto comum. Ela tem suas necessidades, devido à sua fragilidade, mas a comunicação deles seria melhorada pois, como já havia dito, a amizade entre eles deixara um canal aberto para falar sobre qualquer assunto. Ela disse que estava apenas com ele e que não havia motivos para duvidar. Conversaram mais, sobre assuntos cotidianos, sobre os problemas do trabalho e terminaram o almoço.
Ele a acompanhou até a estação do Metrô. Ela não agüentaria andar muito pois estava com o corpo todo queimado de sol e o carro dele estava muito longe. Se despediram e foram embora.
Na terça-feira, dia em que habitualmente se viam, ele a convidou para sair, mas ela precisou recusar pois estava com muitos trabalhos de sua pós-graduação para fazer. No dia seguinte ele tentou iniciar uma conversa, perguntando se ela havia conseguido acabar suas tarefas. Ela respondeu que ligaria mais tarde, mas não ligou. Nem mais tarde, nem no dia seguinte.
Eram os sinais de algo errado na relação, mas ele achou que eram apenas desencontros de uma rotina agitada.
A semana estava quase terminando e eles ainda não tinham conseguido sair juntos. Havia naquele dia uma festa de inauguração no escritório dela, e ela participaria. Ele perguntou a ela se depois dessa festa ainda faria alguma coisa. Ela nunca respondeu.
De tarde, ele recebe um convite para participar da festa, mas fica em dúvida se deve ou não ir. Por um lado, queria vê-la, mas por outro, não poderia demonstrar seu afeto perto daquelas pessoas. Teve que tomar uma decisão difícil e na última hora ele foi.
Chegando à festa, cumprimentou os conhecidos, alguns desconhecidos e logo a avistou. Estava cercada de pessoas que outrora trabalharam com ele. A feição de espanto dela era nítida e esperada, já que nem ele esperava estar lá. Ele se aproximou e cumprimentou todos, sem distinção e sem mostrar qualquer afetuosidade a mais.
Ele continuou circulando e cumprimentando as pessoas, até que encontrou duas amigas. Elas, surpresas, começaram a conversar com ele. Em um certo momento uma delas diz:
– Nossa, estou tão feliz por você.
Ele não havia entendido. Ela continuou falando até que conseguiu esclarecer o assunto.
– Vocês dois formam um belo casal – explicou ela – Fico feliz que estejam juntos.
Ele ficou espantado, achava que ninguém lá saberia dessa história. Mas sua amiga explicou que ela havia lhe contado.
Mais dúvidas rodaram pela cabeça dele. Acabara de ouvir que ela os considerava um casal, inclusive divulgava essa imagem, contudo parecia estar fugindo dele, sem responder a qualquer chamado que fazia naquela semana.
Ficou mais algum tempo e, deslocado, foi embora.
Passou a cumprimentar as mesmas pessoas que vira na entrada e anunciar sua partida. Novamente a encontrou, cercada de pessoas, e se despediu de todos. Quando se despediu dela, ela disse que ligaria mais tarde.
Chegando em sua casa, ele lhe enviou uma mensagem, explicando que a frieza que demonstrara na festa era apenas para protegê-la, para que não voltassem os boatos que os assombravam no passado. Também disse que ficaria acordado até mais tarde, portanto poderia ligar quando pudesse. Ela nunca ligou.
No dia seguinte ele iria trabalhar. Ligou para ela, 11h30 da manhã, e seu celular tocou duas vezes e desligou. Foi tomar banho e uma hora depois tentou novamente. Tocou algumas vezes, atendeu e desligou. Foi a gota d’água. Tudo o que ele precisava para acabar de vez com essa farsa.
Foi trabalhar, possuído de uma raiva e tristeza inexplicáveis. Encontrou seus colegas, que o acharam estranho. Ele não comentou. No final da reunião, estavam conversando e algum colega citou o nome de sua companheira. Nesse momento ele quebrou o silêncio.
Mesmo com os fortes laços de amizade que tinha com seus sócios, ele jamais havia contado do seu relacionamento. Percebera que ela confidenciara com outras pessoas e esse era o momento dele fazer o mesmo. Contou, em poucas palavras que eles estavam saindo juntos e contou que ela estava terminando isso de maneira obscura. Ninguém comentou nada.
Saiu da reunião, voltou para casa e fez as malas. Seus amigos estavam na praia, devido ao feriado, e ele precisaria espairecer sobre o assunto. Uma ótima oportunidade para isso.
Chegou na praia à noite, após enfrentar um congestionamento na estrada. A viagem em si também acabou rápido, tiveram que voltar mais cedo pois, durante a estada, a casa havia sido invadida por assaltantes. Ele acabou passando o feriado em casa.
Dia seguinte, uma terça-feira, era o primeiro dia útil da semana. Ele teve que ir ao banco que ficava próximo ao escritório dela. Após resolver todos os assuntos que precisava foi comer em uma lanchonete nas imediações e encontrou dois amigos em outra mesa. Sentou-se com eles e conversaram, depois o convidaram para visitar o escritório e rever as pessoas que não havia visto na festa da sexta-feira.
Chegando ao escritório, subiu direto ao departamento em que trabalhou por algum tempo, reviu os colegas daquela época e outros, de outros departamentos, acabaram aparecendo. Ela apareceu também e o cumprimentou.
Ele não queria ter visto ela naquela hora. Aquilo havia sido um acidente. Ele nem queria ser educado com ela, mas não poderia ser grosseiro se ela, educadamente, o cumprimentava. O sorriso dela ficou marcado em sua mente, pois não havia motivos para sorrir. Passou algum tempo e ele foi embora.
O encontro com ela o abalara. Era como um fantasma o assombrando. Alguém que age de uma forma estranha e finge não haver nada. Ele tinha a necessidade de resolver definitivamente a situação que estava com ela. Se não havia mais nada, ele tinha o direito de saber. Ligou em vão, mas acabou mandando uma mensagem, sugerindo uma última conversa para acabar tudo.
Horas depois, ela respondeu, dizendo que topava a conversa e não queria desentendimentos.
Ele havia saído, havia bebido, quando recebeu essa mensagem. A ironia que percebera soava como um insulto à sua boa vontade. Se ela não queria desentendimentos, poderia ter sido franca na última semana e, pelo menos, atendido a algum telefonema.
Repleto de raiva, continuou sua noite, tentando esquecer do ocorrido, mas não adiantou. Nem todo álcool do mundo faria aquilo desaparecer. Voltou para casa na mesma hora. Em um horário que jamais voltaria.
Chegando em casa mandou-lhe uma mensagem, questionando a falta de coragem dela, para assumir suas decisões e dizendo que não era um idiota para continuar assim. Menos de meia hora depois ainda sentia que deveria falar tudo o que sentia e, previa que nunca teria a chance de falar pessoalmente, encontrou no e-mail uma ferramenta ideal para fazer seu desabafo.
Então mandou seu e-mail. Nele dizia o que ele sentiu ao ler a mensagem dela. Dizia também da séria desconfiança que tinha, pois certamente ela estava com outra pessoa. Este seria o único motivo para uma fuga tão imatura. Falava também que era impossível confiar nela, pois ao invés de deixar claro que não queria mais nada achou melhor ignorá-lo e evitá-lo. Também lembrou que uma semana antes ela dizia que estava apenas com ele, o que, nitidamente, era mentira. Sem confiança, nem a amizade poderia continuar. Confiança é a base de qualquer relação.
Após o envio, a raiva se transformou numa forte crise depressiva. Precisava falar com alguém. Mandou outro e-mail para uma amiga, com a qual havia combinado um almoço e pediu para almoçar apenas com ela. Marcaram o almoço para quinta-feira.
Horas mais tarde, ele foi dormir.
IV. Um recomeço
No dia seguinte ele acordou tarde. Havia bebido demais e demoraria para se recuperar. A cabeça ainda doía, a depressão ainda era presente e ele não tinha vontade de comer nada. O dia foi passando sem mudar esse quadro.
No final da tarde se lembrara do e-mail, mas não do seu conteúdo. Releu-o e saiu para sua aula. Percebeu que seu desabafo poderia impedir que houvesse a conversa que tanto precisava, mas o que havia sido feito estava feito. Tentou algo, mandou uma mensagem dizendo que, se ela não tivesse lido, que não lesse, e que ainda queria conversar olhando nos olhos dela.
Ao sair da aula, já no caminho de volta, ele recebeu uma resposta. Ela dizia que não era nada daquilo que ele havia escrito. Ele quis saber, então, o que era e ligou. Ligou uma, duas, várias vezes e ela não o atendia. Ele precisava oficializar esse desfecho urgentemente. Mudou sua rota e foi em direção à casa dela.
No caminho tentou ligar mais vezes, em vão. Até que chegou em frente ao seu prédio. Estacionou o carro e ligou pela última vez. Nada. Dirigiu-se à portaria e pediu para tocar em seu apartamento, dizendo seu nome e pedindo para dizer que seria breve. O porteiro ligou e passou-lhe a resposta dela: ela ligaria para seu celular.
Ele voltou ao carro, mas não saiu de lá. Ficou esperando. Cinco minutos depois ela liga, dizendo que descerá para falar com ele. Mais cinco minutos e ela aparece ao longe.
Quando a porta do prédio se abre ele sai do carro e se coloca de pé diante dela. Ela chega com o rosto vermelho e logo nas primeiras palavras esboçam as primeiras lágrimas. Ele a deixa falar, já havia dito grande parte do que pensava, era sua vez de ouvir.
Ela começa dizendo que não ia nem conversar com ele, mas decidiu fazê-lo. Explicou que havia lido seu e-mail há pouco tempo e, enquanto ele tentava ligar, ela redigia uma resposta. Esse foi também o motivo de sua demora.
Sob lágrimas, o olhou nos olhos. Disse que ele entendera errado, que nunca houvera outra pessoa além dele, que ele era especial demais e o adorava. Justificou-se, dizendo que fugia por medo de se machucar, queria que tudo corresse lentamente para que pudessem construir juntos uma relação duradoura.
Falou também da sua situação. Fragilizada, sozinha, longe da família, os parentes com problemas, ela sem amigos e com problemas no trabalho. Não tinha ninguém aqui e tinha medo de confiar em alguém e sofrer.
Ele ouvia e tentava confortá-la. Ele percebera a sinceridade nas suas palavras e seus medos. O choro sempre foi uma arma de argumentação feminina.
Falou das outras relações que teve após seu casamento e falou que recebera flores de um admirador no mesmo dia. Falou que havia brigado com sua chefa, com seu ex-marido e sua vida estava um inferno. Ficou muito chateada ao ler seu e-mail, desconfiando dela, acusando-a de estar com outro.
– O que você queria que eu pensasse de você me evitando por duas semanas? – disse ele – Coloque-se no meu lugar, o que pensaria?
Ela consentiu com um gesto e mais uma vez negou que houvesse outra pessoa. Contou-lhe que o jantar com o ex-marido, semanas antes, era mentira. Contara isso pois teve ciúmes dele com sua ex-namorada. Ela também tinha medo de seu passado boêmio, mesmo ele afirmando que trocaria tudo para estar com ela.
Também lhe contou o que houve no sábado após a festa, quando não atendeu seus telefonemas. Segundo ela, estava na rodoviária, esperando o horário do ônibus para sua cidade. Estava exausta e dormia sobre suas bagagens. Contou isso chorando e mostrou o quanto sua vida era difícil.
Falaram sobre o que aconteceu na festa e ela disse que havia contado deles para algumas pessoas. Contou quais pessoas estavam sabendo.
Ele afirmou o quanto sofreu durante sua ausência, sua fuga, e que não queria outra coisa senão acabar com isso e voltar a ter a vida de antes. Mostrou que, nesse período, a relação deles ficou mais distante e fria do que quando eram apenas amigos. Não fazia sentido, a amizade deveria tê-los ajudado e não ser esquecida.
Ela concordou. Pediu desculpas pela ausência e disse, novamente, que o adorava, mas no momento estava com raiva. Queria continuar, mas dessa vez mais lentamente, começando do zero. Era a chance dos dois corrigirem seus erros.
A briga havia acabado. Ambos voltaram para suas casas.
Chegando em casa, ele se sentiu aliviado. Havia tirado um peso de suas costas que não estava conseguindo carregar. Suas emoções tinham o atordoado tanto que, nesse momento, fez sua primeira refeição em mais de 34 horas. Após comer, foi ler o e-mail que ela mandara antes de conversarem.
No e-mail ela estava com raiva, mas suas idéias não conflitavam com o que havia dito pessoalmente. Não havia outra pessoa, queria ir devagar e sua vida não era fácil. Queria que da amizade nascesse o amor sólido e duradouro. Dizia que sonhara muito estar com ele e o único motivo de sua fuga era o medo dos próprios sentimentos.
Mesmo estando tudo esclarecido ele respondeu ao e-mail. Já havia dito muita coisa pessoalmente, mas acreditava que certas coisas são expressas melhores quando escritas. Abriu o jogo, se declarou abertamente. Falou dos seus sentimentos, dos seus planos e de tudo que tinha ocorrido.
No dia seguinte, quinta-feira, ele iria ao almoço com sua amiga, que iria sozinha devido ao pedido que fizera no meio de sua depressão. Essa amiga era uma antiga colega, que trabalhava na mesma empresa dela.
No caminho ele lembrou do e-mail que tinha mandado de noite e enviou uma mensagem que dizia que ela poderia ler esse e-mail sem problemas. Imediatamente ela respondeu que o leria à noite.
Ele chegou no escritório e chamou sua amiga para o almoço. Ela desceu e eles saíram. Foram à mesma lanchonete que fora dias antes e enquanto comiam, conversaram. Sua amiga estava preocupada com o estado que ele estava quando lhe fizera o pedido por e-mail. Tinha ficado evidente que não estava bem. Ele disse que estava melhor, que havia resolvido seus problemas. Contou toda a história, sem citar nome algum e tomando todo cuidado disfarçar evidências que denunciassem quem era a tal mulher. Depois conversaram sobre relacionamentos e ele recebeu alguns conselhos.
Não era a primeira pessoa que o aconselhara, mas ele estava tão aliviado e confiante após a discussão da noite anterior que acabou não dando atenção. Tinha certeza que tudo daria certo.
Após o almoço, foi acompanhar sua amiga de volta ao escritório e, enquanto voltava para o carro olhou seu celular. Havia uma mensagem dela, perguntando se ele iria almoçar com sua amiga. Nos minutos a seguir tiveram um breve diálogo. Ele disse com quem havia almoçado, disse que foi bater um papo com sua amiga, perguntou se ela estava almoçando e se estava bem.
– Não, estou péssima. A minha chefa acabou com meu dia. Mas à noite te conto. – disse ela.
De madrugada, ela manda outra mensagem, perguntando se ele estava acordado e começam outra conversa. Ele pergunta se ela leu seu e-mail. Ela havia gostado do que ele escrevera. Ela perguntou se ele havia dito algo sobre eles para sua amiga ou para a chefa dela. Ele negou. Havia desabafado, mas omitido qualquer informação que a expusesse. Ela contou que naquele dia havia discutido com sua chefa e ele era o motivo. Ficou de explicar com calma no dia seguinte.
Ele ficou curioso. Queria saber qual seu envolvimento em uma briga dentro da empresa. Ele sabia que não seria por assuntos profissionais, visto que não trabalhava lá há meses e era de outro departamento. Mas qual seria, então, o motivo?
Dia seguinte ele manda uma mensagem a ela, dizendo que queria conversar sobre o assunto da noite anterior. Ela estava em um bar com outras pessoas, não era um bom momento para tratar desse assunto.
Sábado ligou novamente. Ela estava na estrada, pois havia aula em outra cidade, de sua pós-graduação à distância. À noite ela o manda uma mensagem, dizendo que havia viajado de madrugada e voltado no início da tarde, dormira desde então. Perguntou como ele estava e o que estava fazendo. Ele ligou para ela. Era o melhor modo de responder essas perguntas. Conversaram por algum tempo e ela não quis comentar sobre a discussão com sua chefa. Ao desligar, ele enviou uma mensagem elogiando-a. Ele havia percebido a mudança de comportamento dela desde a discussão que tiveram. Agora ela não fugia mais, pelo contrário, tentava estar presente, conversar, dar notícias e perguntar sobre ele.
No domingo ele ficou trabalhando em casa e, à noite, ela iniciou uma conversa pela internet. Falaram sobre o que haviam feito, sobre suas tarefas pendentes e assuntos corriqueiros. Em um certo momento ela pergunta novamente sobre o almoço com sua amiga, na quinta-feira. Ela queria saber o que havia acontecido naquele almoço. Ele contou que foram apenas conversar, manter contato, coisa que há muito tempo não faziam. Ela pediu para ele ligar.
Ele ligou para a casa dela e continuaram a conversa. Ela explicou o motivo de suas dúvidas contando o que houvera entre ela e sua chefa. Elas haviam discutido e sua chefa disse para tomar cuidado com ele, pois estava almoçando com sua amiga e poderia, de alguma forma, jogá-la contra ela. Continuou, dizendo que sua amiga tinha uma relevância muito maior que ela, então ela não deveria colocar sua mão no fogo por ele, pois ele não trocaria essa amizade por nada. Ela disse que colocaria a mão no fogo por ele. Colocaria o braço e o corpo todo também. Ele disse que isso tudo era ridículo, não havia motivo algum para jogar uma contra a outra. Conversaram mais um pouco e desligaram o telefone.
Alguns minutos depois ela voltou a procurá-lo pela internet. Continuaram o mesmo assunto. Ela achava que todos esses comentários das outras pessoas eram porque ele estava muito presente na empresa nos últimos dias. Falaram novamente da festa e o assunto voltou a ser a discussão entre ela e sua chefa.
– Sabe o que ela falou também? – disse ela – que um homem com raiva era capaz de qualquer coisa, então que eu tomasse muito cuidado com você.
Eles esclareceram a história. De fato, ele estava com raiva quando ela estava fugindo dele, mas nunca disse isso para sua chefe. Nem sequer mencionara seu nome. Além disso, agora eles estavam bem, com suas diferenças resolvidas. Ele até pediu desculpas, por ter ficado com raiva, mas de fato pensava que ela o havia deixado.
– Eu acho que tem muita coisa para acontecer entre a gente ainda, mas só espero que você tenha paciência também – confidenciou ela.
Não seria fácil, mas ele concordou com sua exigência. Explicou para ela o martírio que foi na sua ausência. Fora horrível. Ela imaginava e lhe pediu desculpas. Ele contou que chegou a sair com a intenção de achar outra mulher mas, bloqueado, não conseguia. Tinha a necessidade de resolver a sua relação, para saber se poderia mesmo voltar à boemia.
– E quem garante que você não caçou nada por aí? – ela o questionou.
– Se eu tivesse caçado não teria insistido com você… já estaria na próxima – respondeu – Pois é, você achou um cara que gosta de você. Segure-o.
Logo se despediram e foram dormir.
No dia seguinte não se falaram, mas terça-feira ele ligou para ela. Conversaram. Ambos estavam muito atarefados e não poderiam fazer nada nesta noite, contudo ele convidou-a para sair nos dias seguintes. Ela disse que talvez não iria para a aula de quinta-feira e poderia sair com ele. Ele disse que neste dia teria a festa de uma amiga e que, se ela quisesse, eles iriam juntos. Caso não quisesse voltar muito tarde, poderiam fazer outra coisa. Ela concordou e decidiu que resolveriam no dia.
Na quinta-feira, quando caiu a noite, ele mandou uma mensagem a ela. Perguntava se ela havia ido à aula e a convidou para sair. Em menos de um minuto ela respondeu que ligaria para ele. Algum tempo depois ela liga:
– E então, vamos sair ou não vamos? – ela perguntava, animada.
A resposta não seria novidade e, assim que se arrumaram, ele foi buscá-la. Ela disse que não poderia voltar muito tarde, pois sexta-feira seria um dia muito cansativo, então resolveram ir a um bar, onde pudessem sentar e conversar.
Foram ao bar. Escolheram uma mesa externa pois ela queria fumar e se sentaram. Os chopes vinham e a conversa começava. Não demorou muito e ela começou a falar de seu trabalho, das brigas e intrigas que a rodeavam, histórias de um grupo de mulheres que não se suportavam mas mantinham uma falsa amizade cheia de disputas. Ele ria. Tudo isso era tão inacreditável que ele achava engraçado.
A conversa foi interrompida por um telefonema para ele. Era sua amiga, cuja festa de aniversário aconteceria nas próximas horas. Ele disse que chegaria mais tarde, passaria por lá para lhe dar os parabéns. Após desligar, explicou que essa amiga era a irmã mais nova de seu amigo mais antigo, conhecia ela desde os quatorze anos, era como uma irmã para ele. Relembrou-a que haveria essa festa e novamente a convidou. Ela negou devido ao horário que voltaria para casa.
Conversaram mais sobre assuntos de trabalho. Ela disse que no sábado iria para um sítio de uma colega, mas pensava em desistir da idéia, pois não queria ver as mesmas pessoas que via durante a semana. Ele fez outra proposta: caso não fosse, poderia acompanhá-lo em um churrasco, da mesma amiga que estava fazendo aniversário. Por ser próximo da casa deles, poderiam sair quando quisessem. Ela gostou da idéia, ia pensar com mais calma.
Durante a noite, mais ligações foram feitas para ele, sempre das pessoas cobrando sua presença na festa. Ela percebera e tentava se mostrar indiferente, mas fez comentários sobre a festa ser mais importante para ele. Ele disse que não, que não estaria lá se pensasse assim, e lembrou-a que gostaria que ela fosse com ele.
O bar já estava fechando e eles foram embora. No caminho para a casa dela ainda pararam em outro estabelecimento, para usar o banheiro e ela aproveitou para comprar chocolate e cigarros. Depois ele a levou de volta e, na porta de sua casa ainda conversavam. Ele fez um gesto com o dedo, colocando-o em frente ao rosto dela como se pedisse silêncio e, com o mesmo dedo apontou seu rosto. Ele se aproximou e se beijaram. O primeiro beijo foi curto. Ele afastou o rosto e disse o exato número de dias que não sentia seus lábios. A beijou de novo. Se beijaram por mais algum tempo e ela disse:
– Vai, seus amigos estão te esperando.
Ele concordou, mas não mudou o que estava fazendo. Nem ela. Após alguns minutos se despediram, ela abriu a porta do carro e virou-se para sair. Voltou, beijou-o mais algumas vezes, enquanto encostava a porta para apagar as luzes. Depois disso se despediu novamente e saiu do carro.
Ele esperou ela entrar no prédio. Estava feliz, pois finalmente superara todas as discussões que tiveram antes. Finalmente o recomeço se mostrara real.
Saiu de lá e foi à festa de sua amiga, em uma boate na zona sul. Foi recebido com calorosas saudações. Havia muitos amigos, alguns que não via há muito tempo, e todos o esperavam. Passou a noite com eles, depois foi comer em uma padaria e, quando chegou em casa mandou uma nova mensagem a ela, respondendo às dúvidas que ela sempre teve:
– Voltei. E você foi a única mulher da minha noite. Te adoro. – ele dizia.
V. Um súbito final
No dia seguinte alguns casais de amigos ligaram para ele. Queriam reunir todos os casais em um jantar. Ele lembrava que ela havia dito que seu dia seria cansativo, mas talvez aceitasse o jantar. Mandou-lhe uma mensagem convidando-a, ela respondeu, recusando o convite devido ao cansaço. Mais tarde ele ligou para conversar com ela, que agradeceu novamente o convite, mas confirmou que não iria viajar no sábado, sairia com ele. Combinaram de se falar no dia seguinte, mas já deixaram um horário aproximado marcado.
Ele foi jantar com seus amigos, mesmo sozinho, e voltou pouco depois da meia-noite. Tentou dormir cedo, pois no dia seguinte ainda ia trabalhar, mas aquela noite estava particularmente quente. Os pernilongos pareciam surgir do nada e desaparecer no ar. No final da noite, com muita sorte, ele havia dormido por duas horas.
Sábado de manhã acordou e foi encontrar novamente seus sócios. Trabalharam até o início da tarde e, antes de ir embora ainda teve tempo para conversar com um deles. Comentou que saindo de lá iria a um churrasco e, desta vez, iria acompanhado. Seu sócio ficou um pouco surpreso ao saber quem seria sua acompanhante, afinal, da última vez eles estavam em um período nebuloso. Contudo, desejou-lhe boa sorte e seguiram seus rumos.
Ele chegou em casa por volta de 15h30, apenas uma hora e meia antes do horário que havia combinado com ela. Ele queria descansar um pouco, estava exausto, mas provavelmente iria apenas tomar um banho e ir buscá-la. Então ligou para ela, para ver como ela estava e decidir o que fazer.
Ligou e ela o atendeu. Ela disse que estava indo almoçar com um casal de amigos e saindo de lá ligaria para ele. Confirmaram o horário estimado e se despediram.
Vendo que ela ainda demoraria, ele foi cochilar, o que conseguiu quase imediatamente. Acordara trinta minutos depois do horário previsto. Ligou para ela, para ver se ela também estava atrasada, mas ela não atendeu. Foi tomar um banho rápido e lembrou-se de levar o telefone para o banheiro, no caso dela ligar. Ao sair do banho ligou novamente e ela não atendeu. Tentou mais algumas vezes e resolveu deixar uma mensagem. Na mensagem dizia que ele estava indo para o churrasco e quando ela estivesse pronta ele a buscaria. Para ele seria prático, pois o churrasco ficava no caminho para sua casa, ganharia alguns minutos.
No caminho ainda passou no supermercado para comprar cerveja e ligou para ela novamente, nada. Após a compra tentou outra vez. Nada.
Chegando lá, a porta se abre e as pessoas perguntam sobre sua companheira. Ele inventa alguma desculpa, diz que ela se sentiu deslocada, mas ele ainda a convenceria a ir. Parecia uma desculpa perfeita para a falta de notícias que ele tinha. Parecia que já estava prevendo que ela não chegaria nunca. A cada vez que perguntavam ele ligava mais uma, duas vezes. O resultado nunca mudava.
As horas se passavam, o telefone não atendia e ele não sabia o que pensar. Talvez fosse um problema com o aparelho, talvez tivesse ocorrido algo com ela ou talvez ela tivesse voltado a fugir. Era difícil acreditar nisso, considerando o comportamento dela nos últimos dias, mas não era uma hipótese a se jogar fora. Continuou tentando ligar de tempos em tempos. Mandou mensagens de texto. Ligou para sua casa, na esperança que estivesse lá. Deixou recados na caixa postal. Tudo em vão.
À meia-noite ele já não tinha clima para continuar lá. Estava nitidamente chateado e queria saber o que houvera com ela. Resolveu fazer o que havia resolvido a situação na última vez, iria provocar um encontro na casa dela.
Anunciou sua partida para a dona da festa e para poucas pessoas que estavam próximas dela. Todos se espantaram com o horário de sua saída. Ele diz que talvez voltasse.
Pegou seu carro e foi para a casa dela. Chegou rápido. Não tinha trânsito nesse horário e ele já estava no meio do caminho. Pediu ao porteiro que tocasse no apartamento dela, não obteve resposta. Ele tentou ligar e também não conseguia. Agradeceu, entrou no carro e ligou, mas esperou soar a caixa postal. Deixou o recado, nele dizia o horário, dizia que estava em frente a casa dela e deixava para ela escolher o que ia querer. Ligou o carro, deu meia volta e ligou a ultima vez. Ela atendeu. Disse que estava assustada com a mensagem dele. Disse que sabia que havia dado mancada, mas estava com amigos de sua cidade-natal, bêbada de vodca e não trocaria isso por ele. Ele respondeu que havia ouvido o que precisava. Desligou e voltou ao churrasco.
Todos tinham direito de escolher o que quisessem, mas o respeito deveria ser mantido. Isso não estava acontecendo. Não seria difícil para ela dizer que não iria antes de chegar a esse ponto. Ficara claro que os episódios do passado não eram e nunca seriam casos isolados. Ela não o respeitava.
Chegou no churrasco outra vez. Ficou mais uma hora e foi embora.
Estava ciente que nunca mais conversaria com ela. Não valia a pena tentar se reconciliar com alguém que nunca mudaria. Também não queria vê-la novamente, resolveu mandar um último e-mail, encerrando todas suas tentativas frustradas.
No e-mail ele dizia que insistir com ela havia sido um erro. Conviver com suas mancadas constantes e perdoá-las, também foram erros. Falou das ligações não atendidas nem retornadas, das mensagens, e do almoço que não acabou nem de madrugada. Tudo poderia ser resolvido se avisasse que não sairia com ele. Era impossível confiar nela. Ela não pensava em ninguém senão nela mesma, estava iludida com sua nova vida de solteira. Definitivamente não era isso o que ele buscava.
Foi dormir, indignado.
VI. Ele, ela e o(s) outro(s)
Na manhã seguinte ele recebe a ligação de um antigo colega que não via há muitos meses. Não tinha mais notícias dele, então ficou muito feliz com sua aparição. Conversam sobre o que estão fazendo atualmente, sobre os projetos futuros e falam de algumas idéias em que podem trabalhar juntos. Eram idéias interessantes que poderiam gerar muitos frutos para ambos. Depois de alguns minutos se despediram.
Ele ficou trabalhando no domingo a tarde, na internet, onde encontrou uma amiga que sabia do seu relacionamento. Começou uma conversa com ela, sobre assuntos diversos, até que não agüentou mais e falou o que estava preso em sua garganta. Disse que sua tentativa de relacionamento era um problema sem solução e que continuar seria um erro. Começou a contar o ocorrido do dia anterior. E em certo momento sua amiga expõe sua dúvida.
– Ai, conto ou não conto? – disse sua amiga, aflita.
Ele insistiu e sua amiga contou: Ela estava com outro. Trabalhava próximo dela e havia lhe mandado flores.
Ele ficou em choque. Todas as suas desconfianças passaram pela sua cabeça, todas as fugas e todas essas lembranças culminaram no rosto dela, chorando e dizendo que não havia outra pessoa além dele. Ela havia mentido o tempo todo. Olhado em seus olhos, chorado e mentido.
Todo esse tempo em que ela dizia ter medo, não era medo. Quando dizia construir uma relação, não construía nada. Quando dizia ser amiga, não era. Seus beijos não eram sinceros, assim como suas palavras. Se deixara envolver em uma farsa. Ele teve certeza de que tudo isso havia sido um erro, desde sua amizade, até sua paixão, que roubara um mês de sua vida.
Toda a situação havia mudado. Agora ele queria falar com ela. Não para uma reconciliação, nem para uma briga. Ele queria ouvir dela o que já sabia. Queria que, depois de tantas negações, ela tivesse a coragem de dizer a verdade.
Mandou-lhe uma mensagem, sem contar o que já sabia. Pedia para conversar e que queria saber apenas o motivo de sua fuga.
Instantaneamente ela aparece na tela de seu computador. Não queria conversar, mandou esquecê-la. Estava cansada das ofensas dele e não teria que dar explicação nenhuma de sua vida. Disse que ele não a respeitava e que ela não era nenhuma vagabunda.
Ela havia invertido o jogo. Era fascinante sua capacidade de negar a realidade. Dizia-se desrespeitada quando fugia de um compromisso sem avisar, quando sumia sem explicações. Tentava manter sua imagem intacta, mas estava com outro homem enquanto dizia a ele dos seus planos de amor. Mais uma vez mentia.
Ele ainda insistia por uma conversa, ela negava sempre. Não queria responder nenhuma questão, nem ao menos o motivo do seu sumiço no dia anterior. Mesmo havendo criado essa situação ainda prestava ao papel de vítima. Após meia hora de tentativas, ele usou a informação que recebera de sua amiga: Perguntou se ela estava mesmo com esse outro homem. Lembrou-a o que ela havia dito sobre outra pessoa, mas pediu que respondesse com sinceridade.
Era um jogo simples, com três alternativas. Se confirmasse ou se omitisse, estaria confirmando a vagabunda que tanto negava ser. Se negasse, a dúvida continuaria. Mas ela não respondeu. Alguns minutos depois ele desistiu, fechou essa conversa de seu computador.
Eis que ela surge novamente, perguntando quem havia contado. Citou o nome de quatro pessoas que poderiam ter contado. Era a resposta que precisava, ela havia não apenas admitido que estava com o outro, mas também contou que havia espalhado a notícia do mesmo modo que fizera quando ficou com ele.
Ele não poderia queimar sua fonte de informação. Disse que sua amiga contou das flores e ele julgou o resto. Na verdade, até ele já sabia das flores, mas tentou esse caminho para protegê-la. Ela confirmou as flores, mas disse que uma coisa não tinha nada a ver com outra. Continuou se negando de responder, que não tinha que dar satisfação alguma. Ele queria apenas um sim ou um não, e ela se negou.
Ele desligou. Estava enjoado, queria vomitar. Não acreditava no quão idiota havia sido. Confiara em suas palavras, palavras vindas de uma amiga. Ela nunca havia sido sua amiga, só agora sabia da verdade.
Precisava falar com alguém. Alguém que pudesse conversar francamente, que pudesse confiar e que fosse sensível o bastante para entendê-lo. Lembrou de uma das poucas pessoas que passaram pela sua vida que preenchiam esses quesitos, uma das únicas pessoas que nunca quiseram ou fizeram nada para o seu mal. Ligou para sua ex-namorada. Ele perguntou aonde ela estava e, quase sem sair a voz, disse que precisava conversar. Em poucos minutos ela estava buscando-o em casa.
Assim que entrou no carro, chorou. Eles foram para outro lugar, mais tranqüilo, para poderem conversar. Ele chorava muito e, aos poucos, contava trechos da história. Não contava de forma linear, falava as coisas de acordo com o que passavam em sua cabeça, suas dúvidas, suas lembranças e o novo sentido que os fatos foram tomando.
Quando estava mais calmo, foram para outro lugar, tomar um suco e continuar sua conversa. Contou o resto da história, se sentiu aliviado, mas arrasado.
Alguns amigos ligaram para ele. Uma dessas pessoas era a amiga que lhe contara do outro homem. Nesse momento explicou que soube através dela mesma que, aparentemente, da mesma forma que contara para os outros quando ficou com ele, também espalhou quando ficou com o outro. Seu sócio também ligou, também sabia. Havia optado por não lhe dizer, para que ele tomasse suas próprias decisões. Estava claro que todos sabiam, menos ele. Despediram-se e voltou à conversa com sua ex-namorada.
Trocaram de assunto e acabaram falando sobre diversas coisas. Ele se lamentava por ter chorado. Havia prometido para ele mesmo que jamais derramaria uma lágrima por uma mulher.
– Por que você quer ser tão forte? Não precisa disso. – Questionou-o.
Nem ele sabia o motivo, mas explicou. Contou toda a história de sua vida. Os motivos que tinha para não baixar a cabeça para nada.
A cada palavra as coisas faziam mais sentido. Ele havia encontrado as respostas que estavam o tempo todo com ele. Após seis horas de conversa eles foram embora. Ele estava bem mais leve mas ouviu um conselho. Conselho que dessa vez levaria em consideração.
– Você desabafou, está melhor. Mas quem tem que ouvir isso é ela, e não eu – aconselhou – Então diga a ela o que tem que dizer.
Após isso o levou para casa, se despediram e ele foi dormir.
Acordou cedo no dia seguinte. Estava renovado. Pensou no conselho que recebera e aproveitou o momento. Como não estava sob efeito de nenhuma emoção quis expor tudo o que pensava. Ele sabia que ela não o atenderia, não o veria e não seria capaz de argumentar. Mandou-lhe um e-mail, dessa vez o último. Definitivo.
Nele, falava sobre a falta de coragem dela de assumir o que fazia e o que queria. Todo o tempo ela teve a chance de interromper essa encenação, mas sempre optou por continuar. Falava das mentiras dela, mesmo olhando em seus olhos e chorando, e da completa falta de confiança nela. Das suas fugas e sua opção libertina de vida. Se tivesse caráter teria o livrado disso antes. Tudo estava acabado, mas da pior forma.
Minutos depois ela liga o xingando. Dizia que ele havia perdido a cabeça e que não tinha direito de fazer isso. Ele perguntou se ela queria esclarecer o assunto, já imaginando a resposta. Ela o xingou e desligou o telefone.
Seu silêncio disse mais do que ela imaginava.
VII. Epílogo
Naquele momento ela morrera para ele. Era uma questão de tempo para esquecê-la.
As últimas 24 horas foram repletas de surpresas e notícias que o fizeram repensar as coisas que havia vivido, não apenas no último mês, mas nos últimos anos, desde que conhecera.
Fechou-se em um período de introspecção, para excluir toda e qualquer lembrança dela. Tinha a necessidade de externar toda essa história, não para mostrar seu lado, não por uma vingança shakespeareana, mas para sentir todos esses fatos saindo dele. Assim, começou a recontar sua história, com a ajuda de históricos de computador e celular, e foi reconstruindo dia a dia o que viveram.
Percebera que toda essa história havia terminado no exato momento em que começou. O único motivo do primeiro beijo acontecido era a insegurança dela. Não a insegurança pela relação entre os dois, mas pela insegurança dela com ela mesma.
Por causa do seu casamento, e dos meses esquecida pelo marido, ela tinha que provar a si mesma que ainda poderia seduzir, ainda poderia conquistar quem ela quisesse. Ele não era um amigo, nem um amor, era apenas mais um troféu.
Isso explicava o motivo de ela espalhar a história. Também explicava o motivo de ter espalhado a história do outro. Tudo era parte das necessidades de seu ego e ele era apenas um objeto.
Quando sua chefa lhe disse para ter cuidado com ele era porque já sabia de suas conquistas. Ela contava tudo para sua chefa, como se estivesse em uma competição. A raiva era prevista, pois ele estava sendo passado para trás.
Todas as vezes que ela dizia estar com amigos ou colegas, deveria estar com o outro. Mesmo quando havia dito que dormia na rodoviária, esperando o ônibus, deveria estar acordando acompanhada e, por esse motivo, não atendia e nem deixava tocar muitas vezes.
A única dúvida que restaria, e nunca teria resposta, é o motivo de suas palavras. Por que havia dito tanto de uma relação que nunca existira? Por que prometia um amor quando seu único objetivo era o colecionismo? Por que se empenhara tanto em mantê-lo à sua espera ao invés de dispensá-lo?
Nunca saberá e já não faz sentido querer responder.
Lembrava apenas de uma frase que ela havia dito, mais de um ano antes, sobre o início de seu casamento: “Escolhi muito, no final fui escolhida”. Alguns hábitos jamais mudariam.
Era a hora dele seguir a vida. Mudar alguns hábitos, alguns amigos e os amores.
Estava enfim livre. Liberto pela verdade e condenado a viver a vida com toda plenitude que merecia.
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