A cada quatro anos o povo brasileiro tem a oportunidade de demonstrar toda sua paixão pelo país, em um ímpeto patriótico capaz de decidir sua situação nos próximos quatro anos. Estou falando das eleições. Contudo, ano de eleição também é ano de Copa e brasileiro prefere ser “hexa” a ter uma vida melhor, então o assunto tratado nesse texto será a verdadeira paixão nacional: a Copa do Mundo.
Quando o ano começou, no calendário brasileiro – após o carnaval –, o assunto já era a Copa. Essa febre foi aumentando à medida que a data se aproximava. As lojas preparavam seus estoques de televisões, cerveja, petiscos e todo o tipo de bugiganga verde e amarela que você possa imaginar. Palavras africanas entraram no dicionário oficial brasileiro, rebatizando cornetas e bolas para vuvuzelas e jabulanis. A imprensa deixou de lado a Dilma e o Serra para responder a pergunta que realmente importava: quem serão os convocados? O Brasil parou.
A seleção vinha de uma série vitoriosa. Dunga conseguiu impor seu estilo de jogo e por pouco não convenceu com seu estilo de se vestir – um verdadeiro luxo –, deixando todo o povo brasileiro confiante na vitória da seleção canarinho. Ele foi sensato, convocou apenas os jogadores que participaram dessas vitórias. Eles estavam treinados e entrosados.
Os torcedores não acharam a escolha tão sensata assim, mas quem são eles para falar algo? Torcedor é sempre fanático, nunca pensa de maneira racional.
Lá na África do Sul…
A Copa do Mundo enfim começou, com direito à Shakira, Black Eyed Peas e jogos da amistosa seleção “Bafana Bafana”. O mundo pode conferir toda a estrutura montada para os jogos: cidades inteiras erguidas para os turistas e profissionais envolvidos, com direito a grandes estádios, hotéis, transporte falho e muitos, mas muitos assaltos.
A estréia do Brasil seria contra a perigosa seleção da Coréia do Norte, uma das mais tradicionais e competitivas equipes do futebol mundial. Um jogo dessa magnitude refletiu, aqui no Brasil, de maneira ensandecida. Legiões saíram às ruas buscando o melhor lugar para assistir a esse clássico. Lotaram supermercados, bares e, principalmente, as ruas. A locomoção em São Paulo às 14h estava pior do que no rush de véspera de feriado, mas tudo isso tinha um ótimo motivo. Um clássico estava prestes a acontecer.
Recordo-me que fui assistir na casa de um amigo, que mora a poucos quarteirões da minha casa. Nesse curto trajeto vi as mais incríveis barbáries no trânsito: carros cortando caminho na contra-mão, subindo nas calçadas e até mesmo ignorando o farol vermelho para cruzar uma avenida movimentada (detalhe: na frente de um fiscal da CET). O comportamento do torcedor brasileiro passou a ser alvo de minha observação.
Ao começar o jogo as ruas já estavam desertas, era possível deitar no asfalto sem medo de ser atropelado. Dezenas de grupos de torcedores, amontoados em apartamentos, saíam às janelas mostrando sua vocação musical, formando uma sinfonia com vuvuzelas de diversos timbres. Nos momentos de silêncio eu, o único torcedor com camiseta vermelha, gritava ao léu: “Coréia! Coréia!”. Olhares de reprovação me fulminavam… o brasileiro é muito patriota.
O jogo foi duro. Sangue, suor e lágrimas escorriam, exigindo da seleção canarinho uma grande superação. Contudo, a trupe de Dunga conseguiu mostrar sua superioridade e saiu na frente com dois gols. A cada gol um escândalo descabido acontecia nas ruas.
Quando a Coréia fez seu gol foi minha vez de fazer escândalo, em uma comemoração solitária. Fui alvejado com olhares malignos, mas ninguém teve coragem de dizer nada. Na certa viram meu biótipo coreano e tiveram medo de algum atentado nuclear. Acabaram aceitando a situação por medo.
O próximo jogo, contra a Costa do Marfim, seria outra dureza. Os africanos são conhecidos pelo seu preparo físico e, além disso, 22 dos 23 jogadores marfinenses jogam em times europeus. É a técnica aliada ao preparo físico. Fui torcer vestido de laranja mas acabei não aproveitando o jogo. O único gol da Costa do Marfim me pareceu impedido, só percebi que era legítimo quando já não tinha graça comemorar.
O jogo foi uma brilhante demonstração do futebol arte. Os dribles, a leveza, toda a plasticidade que o esporte podia proporcionar estavam presentes naqueles 90 minutos. Entre mortos e feridos, o Brasil conquistava sua segunda vitória.
Com essa vitória o Brasil garantiu sua vaga para a próxima fase, tendo apenas que cumprir tabela e jogar com Portugal, uma seleção inexpressiva e sem talentos individuais.
Jogo com galinha morta eu não gosto de vez. Gosto de emoção. Resolvi dormir durante o jogo com Portugal pois, como sempre, fiquei trabalhando de madrugada. Mas quem disse que eu conseguiria dormir? Brasileiro é fanático, é patriota. Brasileiro sempre faz o favor de avisar os vizinhos que o jogo vai começar, para que ninguém perca tal evento. O único problema é que esse aviso chega duas horas antes do jogo começar. Brasileiro preza a pontualidade. Não admite atrasos e, precavido como sempre, evita deixar o aviso para última hora.
Como o previsto, o jogo foi fácil. O Brasil foi benevolente com os gajos, deixando o jogo acabar com zero a zero. Com esse resultado, além do Brasil passar para as oitavas, nossos compadres lusitanos (aqueles lusitanos que 500 anos atrás começaram a colonizar nossas terras, trazendo desenvolvimento e riqueza para as terras tupiniquins) garantiram sua vaga também. Essa benevolência foi o nosso agradecimento ao nosso passado, nossos anos dourados.
Mata-mata
Começa o mata-mata e para meu azar, o invencível Brasil pegou o Chile pela frente. Justo o Chile, pelo qual estava torcendo desde que soube da promessa da apresentadora chilena Claudia Conserva. Como já havia torcido para todos os adversários até o momento, não tive pudores para torcer pelo Chile. Em vão, pois o Chile perdeu.
O lado bom é que dessa vez o barulho da vizinhança estava muito reduzido. Achei estranho pois esperava uma torcida mais fervorosa com a chegada da seleção na fase decisiva. Não entendi, brasileiro é uma criatura surpreendente e misteriosa.
Superei minha tristeza e parti para a próxima etapa: a Holanda. A Holanda é um país sem tradição futebolística. É conhecida pelos seus moinhos de vento, suas vacas leiteiras e plantações de tulipas (as flores, não os copos de cerveja). Também são conhecidos por morarem abaixo do nível do mar, ficando à mercê do clima e dos caprichos divinos. Povo sofrido.
Semelhante ao jogo com Portugal, fui advertido pelos meus vizinhos que o jogo estava prestes a começar. Tive duas horas para me preparar psicologicamente. Assim, o jogo se iniciou de maneira surpreendente: a cada toque de bola eu ouvia centenas de pessoas gritando como se fosse um gol. Sim, sim, a torcida brasileira estava de volta!
Não tardou muito para o Brasil enfiar dois gols nos holandeses. Ok, um deles foi anulado por impedimento, mas o que vale é a emoção. O Brasil continuou invicto até o final do jogo, com exceção de um ou dois gols feitos pelo adversário. Misteriosamente, a Copa do Mundo acabou para os eternos campeões.
E na imprensa?
Uma das coisas mais engraçadas da Copa foi acompanhar os comentários da imprensa.
A seleção que Dunga ameaçava convocar era considerada ótima, tendo se classificado com algumas rodadas de antecedência. Toda a imprensa elogiava. Bastou o Dunga convocar definitivamente que todos começaram a falar mal. Cadê o Ganso? O Pato? O Biro-Biro?
Durante os jogos da primeira fase a imprensa fez questão de tratar todos os adversários medíocres como grandes oponentes – inclusive usei essa ironia nesse texto – transformando resultados pífios em grandes vitórias. Isso foi ressaltado por José Nêumane Pinto na véspera de Brasil versus Portugal. Segundo o jornalista, a imprensa usa essa técnica para ter assunto, pois um jogo sem dificuldade não gera notícia.
Nos jogos do mata-mata a imprensa trocou a estratégia. Apostou no favoritismo da história do Brasil. Bem, história não ganha jogo.
O Galvão quase enfartou durante o jogo com a Holanda. O eterno entusiasta, capaz de transformar jogos medíocres em batalhas épicas, dizia repetidamente com voz trêmula: “é jogo para quem tem coração forte!”. Cheguei a imaginar que com a derrota o Galvão se calaria para sempre. Mas não foi nada que um chá de camomila não resolva.
E o torcedor?
O torcedor perdeu a desculpa para matar o trabalho. Mostrou que é capaz de vestir a camisa por uma causa, mesmo que seja uma causa inútil. Mostrou ser capaz de se mobilizar, de ser pontual, de se unir, de ser patriota, pensar no bem coletivo… enfim, tudo aquilo que não faz em situações normais.
Será que essa lição foi aprendida? Vamos ver nas urnas e nos próximos quatro anos.
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