Nas próximas linhas vou explanar um pouco sobre um dos assuntos que mais gosto. Na verdade não é apenas um assunto, mas sim um conjunto deles, que remetem ao maior conhecimento sobre as pessoas e sobre o que podemos chamar de “perfeição”. Não tenho pretensão de explicar nada, nem ao menos fazer descobertas; penso apenas em pontuar alguns marcos que podem ser pontos de partida para quem se interessar.
Talvez tenha começado o interesse por esses assuntos justamente pela minha formação de designer gráfico. É complicado convencer as pessoas que o conceito de projeto perfeito (em relação à função à que ele se propõe) não quer dizer projeto bonito. A beleza é uma coisa muito relativa e suscetível aos gostos pessoais de cada um.
A beleza é o resultado de um julgamento baseado na bagagem cultural, psicológica e visual da pessoa que vê. Portanto, de acordo com sua origem, religião, história de vida, influência de outras pessoas e vocabulário visual* a pessoa pode ou não gostar de algo.
*Segundo Will Eisner, uma boa comunicação depende da memória, da experiência e o vocabulário visual do próprio narrador, baseado na experiência e características culturais do leitor.
A única maneira para fugir das discussões de beleza seria fazer projetos perfeitos (do ponto de vista funcional) que fossem, necessariamente, perfeitos.(em vários âmbitos).
Foi então que me deparei com um livro do arquiteto György Doczi, arquiteto húngaro, que mostrava estudos que buscavam uma unidade nas mais variadas formas e diferenças entre espécies, arquiteturas, artes, etc.
Os estudos de Doczi, baseados na secção áurea (proporção divina) assim como outras máximas da geometria, mostravam padrões extremamente harmônicos em diversos casos, como em plantas, artes aplicadas de diversas culturas e épocas, pinturas, pirâmides, conchas, crustáceos, peixes, ossos de diversos animais, insetos, humanos, aeronáutica e, claro, arquitetura. A semelhança entre todas essas coisas era exatamente a proporção de sua estrutura e de seus movimentos.
Essa proporção, que tornava todos esses exemplos tão harmônicos, é o phi, número irracional (1,618…) que era o fruto de estudos de geometria de um frade renascentista chamado Luca Pacioli. O livro de Pacioli, contudo, é fortemente baseado em geometria e chega a ter uma dose de abstração muito grande. É difícil compreendê-lo para um uso ergonômico (físico), mas dá bons parâmetros para projetos gráficos.
Ainda na Renascença, cerca de 20 anos antes da publicação do livro de Pacioli, Leonardo da Vinci também fazia estudos sobre a proporção, mas focado no corpo humano.
Seus estudos foram baseados no tratado ‘De Architectura’, de Vitrúvio, que depois de muitos séculos dado como perdido, foi encontrado no início do século XV na biblioteca do mosteiro de Monte Cassino. Considerando os meios de informação da época, a dificuldade e lentidão para disseminar esse conteúdo, podemos concluir que quando Da Vinci teve acesso a esses livros se deparou com uma incrível e fascinante novidade.
Da Vinci fez inúmeras medições e dissecações de cadáveres, até poder completar o raciocínio de Vitrúvio e criar o ‘Homem-vitruviano’, que acabou sendo uma de suas obras mais famosas e se tornou um dos ícones da Renascença (período marcado pelo resgate das referências culturais da antiguidade).
Curiosidade: Décadas antes de Leonardo da Vinci, outros artistas e estudiosos tentaram fazer essa representação do corpo humano, sem o mesmo sucesso.
O tratado ‘De Architectura’ é uma obra em 10 volumes, escrita por Marcos Vitrúvio por volta do ano 40 A.C. Na obra, ele afirmava seus princípios arquiteturais (a utilidade, a beleza e a solidez), que se tornaram a base da arquitetura clássica. Vitrúvio comparava a arquitetura com a natureza: os pássaros com seus ninhos, as abelhas com suas colméias e o homem com suas edificações.
Ele exaltava a perfeição do círculo e falava sobre simetria e as relações da arquitetura com o homem. Assim, direcionou seus estudos de proporções ideais para a arquitetura para uma unidade específica: o corpo humano.
Esse raciocínio, ainda mais para a época, é genial. Mesmo hoje em dia alguns arquitetos (e outros profissionais) ainda deixam as pessoas em segundo plano, como se as edificações não fossem feitas para elas. Esmeram-se na estética mas esquecem da funcionalidade.
Essa, então, seria a resposta para minha pergunta inicial: A busca da perfeição não estava em fórmulas ou cálculos matemáticos, mas no próprio ser humano.
Isso explicava o porquê de ser tão complexo elaborar um projeto gráfico. Não era correto pensar de maneira racional, pois o homem não é apenas racional. Há uma série de subjetividades que devemos levar em conta e, aí sim, começaram meus estudos sobre as pessoas.
É engraçado pensar que em uma busca pela explicação da perfeição eu tenha acabado no humano, algo tão imperfeito. Acabei me lembrando da Bíblia, onde dizia que Deus fez o homem à sua imagem (Gênesis 1:26-27). Perfeito.
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Epílogo
Curioso, fui ler Gênesis para compreender um pouco das circunstâncias dessa passagem e conhecer um pouco mais dessa “criação do mundo”. Sou ateu, como já falei antes, mas vi nesse livro uma história surpreendente.
Ao contrário de outros livros da Bíblia, que contam a história de maneira mais biográfica, Gênesis é muito mais literário, fantasioso, repleto de metáforas e ícones para representar as idéias.
Em Gênesis, Deus se mostra muito mais humano do que a imagem que nós fazemos dele. Ele se irrita com suas criações e as pune. Ele erra, se arrepende e quando percebe a maldade naquele que tem sua imagem, decide por destruí-lo (Gênesis 6:5-7).
Pessoalmente, acho interessante, e até mesmo louvável essa imagem mais humana. Isso dá mais proximidade às pessoas, reduzindo o hiato que existe entre os mortais com as divindades. Perde um pouco daquele ar fictício e torna tudo mais palpável (claro, considerando as metáforas contidas no texto).
Essa é a perfeição de verdade: o equilíbrio. A bondade que convive com a maldade, a paz que convive com a guerra, os erros que convivem com os acertos, a bonança que convive com a miséria, a agitação que convive com a calmaria. Nada em excesso é bom, nem aquilo que nós julgávamos ser perfeito.
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