Fim de ano é sempre uma época conturbada. Esse ano, em especial, o final do ano está sendo uma época de grande correria e revelações.
O mercado está muito aquecido, trazendo muito trabalho e me obrigando a deixar meus textos pessoais um pouco de lado. Contudo, continuei observando as coisas e pensando em assuntos interessantes para abordar aqui, mesmo que sem ter escrito uma única linha.
Após as aulas de Gestão de Pessoas, no MBA, comecei a reparar um pouco mais no meu comportamento e no modo que reajo às mais variadas situações. Descobri que sou um pouco mais anti-social do que eu achava que era. Percebi isso no sábado e estava relendo alguns textos da aula para confirmar.
Vou começar explicando que o fato de ser anti-social não quer dizer que eu seja um ermitão ou misantropo(*), mas refere-se a um dos seis tipos básicos de adaptações de personalidade sugeridos por Paul Ware (terapia de redecisão).
O anti-social é, por natureza, um jogador. É uma pessoa que age de forma estudada e encara tudo como se fosse um jogo, entendendo e estipulando regras e usando-as para chegar em seus objetivos. Os anti-sociais não confiam nos outros, não gostam de demonstrar sentimentos que inspiram vulnerabilidade (como o medo ou a tristeza), mas adoram observar o comportamento dos outros para adequar seu próprio comportamento, seja para encantar ou para intimidar, para manipular a situação ao seu favor.
Quem lê isso pode pensar que o anti-social é uma criatura sórdida e maquiavélica, mas todos nós temos um pouco disso em nossa personalidade. Alguns tem mais, outros tem menos.
A combinação da adaptação anti-social com qualquer outra costuma trazer alguns resultados semelhantes. Costumam ser bons empreendedores, devido ao seu pensamento analítico e estratégico, oriundos de um bom jogador, mas tem muitas dificuldades em relacionamentos íntimos, devido à falta de confiança. Comumente se relacionam bem com as pessoas, de forma bem superficial, deixando uma distância segura para não haver muita intimidade e, conseqüentemente, decepções (derrotas).
Nesse sábado estava com alguns amigos, ex-colegas e algumas pessoas que não conhecia. Apresentações, conversas, e logo estava conversando com uma mulher que não conhecia até então. Não tardou muito e ela perguntou: “Quantos anos você acha que eu tenho?”
E essa foi a isca para entrar no jogo. Acertar a resposta seria um desafio que o jogador não deixaria passar em branco.
Comecei a pensar, em voz alta, juntando todas as pistas que eu havia percebido. As frases que ela havia dito, o tom de voz usado, dando os devidos pesos a cada um dos elementos (verbais ou não verbais) e cheguei a uma conclusão: “Trinta e dois!”
A resposta estava certa. Surge um amigo e diz: “Ah, ele sempre faz isso. Fica reparando em tudo o que você faz, diz, até no seu rosto, pra poder saber essas coisas.”
Só então percebi que meu comportamento não era novidade e já era, inclusive, previsível. Lembrei do curso de leitura facial e dos inúmeros estudos de comportamento humano que havia feito nos meses anteriores. Lembrei dos diversos estudos para adquirir cultura geral e manter conversas interessantes em âmbitos controlados (para poder manipular o assunto, levando-o para onde eu quisesse).
Sim. Me tornei, enfim, um jogador. Vivo a observar as coisas, para descobrir como funcionam e poder definir as regras. Adapto o comportamento de acordo com tais regras e tento melhorar a efetividade delas a cada jogada. Tento reduzir riscos, conseguir o controle da situação e atuar em terrenos conhecidos e previamente preparados.
Sou anti-social e só eu não sabia disso.
Post Script:
(*) Usei a palavra misantropo no texto, uma palavra que ouvi pela primeira vez há pouco mais de um mês por um amigo. Resolvi usá-la pois encontrei um segundo sentido nela que também tem muita relação com o assunto tratado nesse texto.
MISANTROPO adj. e s.m. (Do gr. misanthropos, que odeia o homem.) 1. Que ou aquele que tem aversão à sociedade dos homens, a quem aborrece a companhia humana. – 2. Homem melancólico.
Misantropo (O), comédia em cinco atos de Molière, encenada em 1666. Considerada com uma das obras-primas do autor, introduz a figura do reisonneur, personagem que comenta a situação e o comportamento das demais personagens e que se tornou, posteriormente, característica do teatro francês. (Larousse)
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